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Tuesday

05

January 2016

O Círculo Hermenêutico de Gadamer

by Fabio Rodrigues de Carvalho

Hermenêutica: atualização gnosiológica

O objetivo da hermenêutica gadameriana, influenciada pelo pensamento de Heidegger, é o de superação das visões distorcidas sob os preconceitos propondo através disso uma compreensão adequada da finitude, a qual não se limite a nossa estrutura enquanto ser, mas também enquanto ser histórico.

Mas enquanto seres interpretantes situados num mundo, qual é o sentido e as condições de nossas interpretações?

Quanto a isto, um dos grandes contributos de Gadamer para a hermenêutica é a elucidação do conceito de círculo hermenêutico advindo da influência heideggeriana:

Circulo Hermenêutico

O círculo não deve ser degradado a círculo vicioso, mesmo que este seja tolerado. Nele vela uma possibilidade positiva do conhecimento mais originário, que, evidentemente, só será compreendido de modo adequado, quando a interpretação compreender que sua tarefa primeira, constante e última permanece sendo a de não receber de antemão, por meio de uma ‘feliz ideia’ ou por meio de conceitos populares, nem a posição prévia, nem a visão prévia, mas em assegurar o tema científico na elaboração desses conceitos a partir da coisa mesma. (GADAMER, 1998, p. 401).

Assim, o círculo hermenêutico é o movimento da compreensão, ou seja, do projetar-se, fluxo da saída de si e das próprias impressões, interpretações e ir ao encontro do texto.

Nessa dinâmica de infinitas possibilidades de interpretações, ao nos posicionarmos diante de um texto, temos dele uma pré-compreensão, um pré-conceito por meio da transmissão de fatores culturais. Ao ser submetido à interpretação, o intérprete deve fazer jus das informações e condições do texto, formulando e reformulando sua leitura sobre o mesmo. Com isso, o interpretante põe seus preconceitos ante o crivo do texto, num ciclo infinito e intermitente de interpretações:

“Em suma, esse constante projetar de novo é o que perfaz o movimento semântico de compreender e de interpretar”. (GADAMER, 2002, p. 75).

Fica-se estabelecido neste caso que a hermenêutica não consiste numa decodificação, muito menos numa técnica, mas numa compreensão constante, movimento de encontro, interpretação, análise e reinterpretação de um texto.

Desta reciprocidade entre texto e interpretante dá-se o que denominamos de diálogo:

“A principal tarefa do intérprete é descobrir a pergunta a que o texto vem dar resposta; compreender um texto é compreender a pergunta”. (BLEICHER, 1980, p. 161).

Por sua vez, a tarefa de interpretar e compreender, pela qual se caracteriza a hermenêutica não é algo monológico, todavia um movimento dialógico de pergunta e resposta, entre texto e intérprete.

Dentro desta dialética outro fator de grande relevância é o deslocamento do leitor até o texto, do dito ao não dito, do questionado ao questionador.

Conquanto, para uma interpretação correta devemo-nos atentar para os desvios e erros de uma pré-interpretação e irmos às coisas mesmas, ou propriamente ao texto, tendo sempre em conta a consciência de sua alteridade – o texto fala por si mesmo, tem contexto, estilo e a visão do autor no qual foi escrito:

“Quem quiser compreender um texto está, ao contrário, disposto a deixar que ele diga alguma coisa”. (GADAMER, 2002, p. 76).

Consequentemente, a dialética alcançará autenticidade no momento em que se der a fusão dos horizontes, no qual o entendimento do texto se dará por sua interpretação no presente visando um futuro, sem se esquecer do seu passado. Logo, dar-se conta dos próprios preconceitos antes de ler o texto é tarefa indispensável a todo interpretante:

A compreensão somente alcança sua verdadeira possibilidade, quando as opiniões prévias, com as quais ela inicia, não são arbitrárias.

Por isso faz sentido que o interprete não se dirija aos textos diretamente, a partir da opinião prévia que lhe subjaz, mas que examine tais opiniões quanto à sua legitimação, isto é, quanto a sua origem e validez. (GADAMER, 1998, p. 403).

Enfim, a postura de análise dos pré-julgamentos não se trata de um aniquilamento das próprias opiniões a respeito do texto, mas da abertura ao diálogo.

A essência deste se dá pelo ato de perguntar, questionar, do pôr-se em acordo com o outro. O conhecimento hermenêutico neste sentido brota da abertura do autor à experiência do texto sendo mediado pelo fenômeno da linguagem que garante o acordo entre os interlocutores e sela a compreensão sobre a coisa:

“Todo compreender é interpretar, e todo interpretar se desenvolve no médium de uma linguagem que pretende deixar falar o objeto e é, ao mesmo tempo, a linguagem própria de seu intérprete”. (GADAMER, 1998, p. 566-567).

Abrir-se ao outro, portanto, ao texto neste sentido é desinstalar-se do próprio conhecimento embarcando posteriormente num intercâmbio de pareceres donde não existe uma verdade absoluta e pré-estabelecida por um método.

A verdade é diálogo, alétheia, desvelamento na arte, linguagem e história.

O conhecimento não é adequação, representação, correspondência, mas sim revelação, manifestação.

Assim sendo, quem quiser chegar à verdade deverá sempre se projetar, revisitar seus conhecimentos prévios num diálogo contínuo e fascinante com o texto:

“É tarefa da hermenêutica esclarecer o milagre da compreensão, que não é uma comunicação misteriosa entre as almas, mas participação num sentido comum”. (GADAMER, 2002, p. 73).

Fonte:http://pensamentoextemporaneo.com.br/?p=2430